O que não estamos falando sobre a IA

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Uma reflexão sobre os impactos emocionais quase nunca mencionados sobre a IA na rotina dos desenvolvedores.

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IA, IA, IA... e IA. Esse é, sem dúvida, o termo que mais se destaca no meu dia a dia. O que faz sentido, pois eu trabalho com tecnologia. Mas, em meio a todo esse hype, existe um lado importante que simplesmente não está sendo falado.

No meu cotidiano, estou constantemente lidando com IA: refatorando funções, avaliando sugestões, limpando códigos desnecessários que ela gera ou ganhando contexto em partes complexas do código. Ainda assim, não tinha parado para refletir (até agora) sobre como isso está impactando não só minha carreira, mas a minha vida como um todo.

Quando falamos sobre IA, a conversa quase sempre gira em torno de produtividade e eficiência. E, quando surgem críticas, elas ficam restritas ao campo técnico. O que raramente entra em pauta é o impacto causado no nosso emocional.

A verdade é que inserimos IA na nossa rotina quase sem questionamento. Em muitos casos, isso vem acompanhado da desculpa: “precisamos de mais velocidade”. Ou, em empresas mais extremas: “quem não usar, pode ir embora”.

Dois sentimentos têm se destacado. O primeiro é a ansiedade, e o segundo é a motivação (ou a falta dela).

A IA já transformou profundamente o processo de desenvolvimento. Não somos mais os principais detentores do conhecimento e responsáveis pela construção de soluções; estamos nos tornando, cada vez mais, revisores de código e homologadores. É um modelo completamente novo, ao qual temos que nos adequar em pouquíssimo tempo.

Toda essa mudança repentina cria inúmeras dúvidas:

O novo, por si só, já gera incerteza. Agora imagine tudo isso, com tantas perguntas em aberto. É natural que isso aumente o nível de ansiedade, em maior ou menor grau, dependendo de cada pessoa.

Quando você já não precisa pensar profundamente em uma solução, o envolvimento com o processo criativo diminui. Aos poucos, a conexão com o que está sendo construído também se perde. A solução deixa de ser algo que você desenvolveu e passa a ser algo que você apenas solicitou.

Basta um prompt e o resultado aparece, rápido e fácil.

Sim, ainda é necessário revisar. Mesmo com alta qualidade, erros acontecem. Mas essa etapa muitas vezes ocorre no automático: você valida, ajusta, itera e segue em frente... sem um real engajamento, sem uma conexão com o que está sendo construído, sem a sensação de pertencimento.

Dependendo do seu nível de experiência, você pode achar que estou sendo um pouco extremo demais, afinal a IA ainda é limitada. Ela não consegue resolver problemas complexos e carece de contexto para tomar decisões, papel em que o desenvolvedor é essencial. Mas estou tentando ser um pouco mais abrangente nessa reflexão, me colocando no começo de carreira, aonde sua base técnica está sendo formada.

Por mais que a IA seja ferramenta, e para os mais céticos um auto complete de luxo, para quem está no estágio inicial, conviver com essas hesitações e ter oportunidaes ameçadas pela IA é no mínimo estressante. Se os mais experientes já estão sentido os reflexos, imagine para aqueles que não tem a proefiência necessaria para julgar os outputs.

A IA não mudou apenas a forma como desenvolvemos; mudou a forma como vivemos. Porque, ao fim do dia, não é tão simples “desligar” dos problemas. Você leva consigo as pressões, as frustrações e toda a carga emocional associada aos desafios que enfrenta.

Estamos falando muito sobre IA. Mas não estamos falando sobre o mais importante: como tudo isso está afetando você?

No fim, espero que a gente consiga, aos poucos, responder essas perguntas e, principalmente, encontrar uma forma saudável de utilizar a IA na nossa vida — porque, inserida na nossa rotina, ela já foi.

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